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Vícios na adolescência: como entendê-los e de que maneira lidar com os filhos, por Karina Delgado

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Por que a incidência de vícios na adolescência é maior e como evitar que os filhos caiam nessa armadilha?

fase da adolescência revela uma inevitável transição do cérebro infantil para um cérebro adulto. As mudanças envolvidas nessa transformação não são um simples aumento do peso ou volume cerebral. Sabe-se que algumas estruturas crescem, outras, por sua vez, encolhem, e são percebidas reorganizações químicas e estruturais, o que leva ao amadurecimento funcional do cérebro.

Pode parecer um pouco complexo o que estou dizendo, mas, neste artigo, convido vocês a “mergulharem” no cérebro do adolescente para entender, minimamente, o seu funcionamento. Afinal de contas, não é fácil lidar com tantas mudanças, não é mesmo? Compreendê-las melhor é um caminho para se pensar em diálogos mais assertivos com esses jovens, sobretudo no que diz respeito a comportamentos não saudáveis, muitas vezes tóxicos e que podem levar aos vícios na adolescência tão temidos por vocês, famílias!

Quando se inicia a adolescência?

Muitos traduzem a adolescência como “aborrecência”, mas gostaria de ser mais compassiva e expandir esse olhar reducionista sobre uma época tão mágica da vida. Essa fase traduz o momento em que a criança deixa de ser criança e começa a experimentar novas sensações e sentimentos.

Isso acontece aos cerca de 11 anos para as meninas e de 14 anos para os meninos, e é um grande marco, pois os hormônios do jovem atingiram a sua capacidade reprodutiva. É um período que revela uma transição das capacidades cognitivas, emocionais e até mesmo sociais do cérebro, ou seja, é o que permite que o indivíduo alcance a posição de adulto na sociedade em que vive.

Como os adolescentes perdem o gosto pelos brinquedos e nada mais os satisfaz?

Pesquisas atuais revelam que o cérebro adolescente sofre uma reorganização química, não na quantidade de neurônios, mas na quantidade de neurotransmissores capazes de levar, de um neurônio para outro, mensagens que aumentam a resposta de hormônios sexuais e a capacidade de produção de outros hormônios.

Para além de apenas mudanças químicas, o cérebro adolescente sofre grande reorganização estrutural para poder desenvolver essa capacidade de trocar sinais entre seus neurônios.

E como se dá essa reorganização? Nessa fase da vida, as mudanças acontecem no sistema de recompensa do cérebro. Esse sistema é um conjunto de estruturas que nos permitem a sensação de prazer e nos fazem querer mais. É exatamente ali que se dão as mudanças responsáveis por fazer com que todas as atividades, das quais antes os seus filhos obtinham prazer, de uma hora para outra, percam o encanto.

Os brinquedos já não têm mais graça, assim como as roupas precisam ser trocadas com urgência por outras da moda, claro, e a decoração do quarto dá lugar para as paixões platônicas em forma de posters de modelos e de famosos do momento.

E não paramos por aí: desenhos e canções infantis são trocadas por filmes e músicas agitadas, o volume fica alto e ter dinheiro no bolso agora é algo que importa, sobretudo para poder gastá-lo junto de outra companhia que, com certeza, se torna mais interessante do que sair com o pai e a mãe.

Todas essas alterações, percebidas durante a adolescência, refletem o que se pode chamar de comportamento motivado. Isso quer dizer que o sistema de recompensa do adolescente torna-se mais difícil de ser ativado pelos prazeres antigos, o que faz com que os jovens abdiquem dos hábitos velhos, que se tornam insatisfatórios, para buscar novos prazeres. Aqui mora o perigo!

Desta forma, surge o tédio com o que é velho e a supervalorização do novo: nova decoração do quarto, jogos novos, gostos por novas músicas e programas de TV, roupas novas que refletem um novo visual e que nem sempre agradarão os familiares.

Se quiser saber mais sobre o tédio na adolescência, leia este outro artigo nosso: Porque não devemos acabar com o tédio.

“O adulto pensa duas vezes antes de agir, o adolescente age duas vezes antes de pensar.”

Não sei de quem é essa frase acima, mas ela representa muito bem o perfil de um adolescente! O jovem agora busca novas interações sociais e, junto a isso, os comportamentos de risco aumentam. Sobretudo porque ainda não possuem um córtex pré-frontal amadurecido o suficiente que lhes permita lidar com pensamentos característicos da idade adulta, como a responsabilidade, a culpa e a antecipação de consequências negativas.

Da noite para o dia, surge o prazer por esportes radicais e outros riscos  mais “controlados”, como aventuras no meio do mato; mas surgem, também, “aventuras” perigosas, como competições em alta velocidade.

A busca por mais estimulação se estende aos chamados prazeres compulsórios, referentes às necessidades do corpo. Aqui pode surgir uma aproximação com as drogas psicotrópicas, que são capazes de ativar diretamente o sistema de recompensa e oferecer prazer intenso e imediato.

Embora essas alterações no comportamento motivado do adolescente sejam drásticas, elas são normais e fazem parte da função de tornar-se adulto. Surpreendente seria se tivéssemos adolescentes que se comportassem ainda como crianças ou que já se comportassem como adultos.

O tédio é uma das evidências mais confiáveis de que o sistema de recompensa da criança entrou na adolescência e começou o seu declínio. Esse tédio, que os adolescentes tanto falam e vivem, é um estado em que nada parece atraente o suficiente, nenhuma opção de entretenimento oferecida pela família parece ter valor. E o melhor remédio para isso é, então, poder arranjar algo novo para fazer e que seja excitante.

Como os vícios surgem na vida do adolescente?

Os adolescentes buscam, nessa fase da vida, por estímulos mais fortes para alcançarem satisfação e o anseio por novidades podem levá-los a comportamentos de risco.

Você, leitor (a), com certeza também se arriscou na sua adolescência. Pode ter sido no parque de diversões, quando voltou para casa tarde da noite por um trajeto que oferecia perigo de assalto, quando descia uma montanha em cima de uma bicicleta sem medo.

busca por novidades está na base do comportamento de risco, o que é característico de adolescentes de maneira geral. Esses jovens gostam da adrenalina do momento que é liberada nas situações de risco.

Para alguns jovens, sair escondido pode ser um risco excitante o suficiente, mas, para outros, é preciso cometer pequenos atos ilícitos para atingir um estímulo que seja satisfatório.

Existem evidências de que o fator genético pode ser influenciador, pois quem possui pouca quantidade de receptores para dopamina (que permitem a sensação de prazer) precisam de motivações maiores para se sentirem recompensados.

O jovem, por si só, já é um “buscador de risco”, com esses déficits genéticos, ainda mais! E tudo isso se relaciona ao uso de drogas e à tendência ao vício na adolescência que elas causam.

As drogas recreacionais, como a cocaína, têm o potencial de aumentar a quantidade de dopamina e estimular o sistema de recompensa. E, quanto maior o nível de elevação, maior é a sensação de prazer ou euforia com o uso da droga.

E, quando se eleva consideravelmente a quantidade de dopamina no cérebro, o sistema de recompensa se protege dessa ativação em demasia e reduz a quantidade de receptores para dopamina, o que o deixa menos sensível para toda a dopamina que emerge. A diminuição perdura e se acentua ao consumir repetidamente a droga. Assim, na medida em que é preciso consumir muito mais droga para obter cada vez menos prazer, o vício já está instalado!

Quando isso passa?

Fique calmo (a)! Todos nós sobrevivemos à adolescência pois, com o passar dos anos, todos os comportamentos turbulentos, a busca por riscos, o tédio e a impulsividade, vão diminuindo. Isso acontece talvez pelo cansaço, pela experiência adquirida e, ainda, pelo simples fato de que o cérebro realmente amadurece.

Como trabalhar essa transição no cérebro do adolescente com tranquilidade? 

Comecemos a pensar! Por que dizem que o esporte é a salvação para muitos adolescentes em situações de vulnerabilidade? Porque, justamente, com as atividades físicas e os desafios envolvidos, o sistema de recompensa desses jovens consegue, com 1 hora de exercícios aeróbicos, o que as drogas podem oferecer. Vale a pena a troca! Além disso, o relacionamento com outros jovens de um mesmo grupo ajuda bastante a manter a cabeça ocupada.

Então, queridas famílias, a dica é a seguinte: ofereça aos seus filhos adolescentes a maior variedade de estímulos novos, não só o esporte ou a academia, mas livros novos, filmes com discussões variadas e debates motivadores para essa faixa etária.

O córtex pré-frontal do cérebro do adolescente está em amadurecimento nessa fase da vida e o jovem já é capaz de desenvolver raciocínio abstrato, o que também pode gerar prazer.

Nesse momento, a busca por interações sociais está dentro da normalidade e, mais do que isso, é de extrema relevância para o adolescente.  Sendo assim, é fundamental encorajá-lo a  estabelecer novas relações e valorizar as boas amizades.

E, às vezes, na ânsia por demonstrar autoridade, pais e mães ou responsáveis sentem que precisam dizer “não pelo não”, pois tem que haver respeito de hierarquias em casa!  Onde já se viu?! O adolescente, que já foi à festa ontem, precisa sair de novo hoje? A resposta é: sim, ele precisa! Isso não quer dizer que os pais devem ser permissivos, mas que podem ampliar o seu olhar e compreender melhor o universo do filho, que o tempo todo busca prazer em decorrência de questões neurológicas do seu desenvolvimento.

Então, queridos pais e familiares, não sejam tão rígidos com seus filhos. Isso mais os afasta de vocês e os aproxima dos comportamentos de risco. Ao invés de competir a atenção com os novos amigos, encoraje-os a apreciar a nova turma trazendo-os para perto de si, oferecendo a sua casa como espaço para confraternizações, por exemplo.

Ao perceber a manifestação da busca por novidades de maneira arriscada, ajude seu filho a canalizar a busca para riscos que podem ser controlados: levar a turma dele para brincar de paintball, deixá-los andar de bicicleta em um local que seja mais seguro e que estejam em grupo, permitir que curtam a tirolesa daquela viagem em família, que pratiquem esportes de maneira geral, que se envolvam com artes, como o teatro, pois essas são opções mais seguras do que muitas outras.

Falamos muito, na Escola da Inteligência, em “cruzar mundos emocionais” em família. E, para isso, precisamos, enquanto responsáveis e educadores de jovens tão desafiadores, ampliarmos nosso olhar unifocal, ou seja, sair da visão de que “o adolescente é um risco potencial e precisa nos obedecer ficando debaixo de nossas asas”, para um olhar multifocal, lembrando de todas as transformações involuntárias que acontecem dentro dele e que ele só quer ser compreendido por todos nós, porque nem ele mesmo se compreende.

Dê colo, ouvidos, cruze mundos emocionais e dialogue muito com seus filhos. Compartilhe suas histórias, os seus “perrengues”, o que deu certo, o que deu errado, explique os porquês, pois isso os aproxima e, com certeza, eles se sentirão mais compreendidos e serão mais compreensíveis também quando não puderem fazer algo que querem.

Espero que tenham gostado da leitura, este artigo foi inspirado no livro “O cérebro adolescente: a neurociência da transformação da criança em adulto”, de Suzana Herculano Houzel, que fica como dica para quem quiser se aprofundar mais no assunto. Até a próxima!

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